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Como os isótopos estáveis podem ajudar a desvendar crimes ambientais


Vinicius Mendonça/Ibama

O ano de 2020 foi tristemente marcado pela pandemia do novo coronavírus. Em nosso país, este ano também vai deixar marcas e lembranças ainda piores por conta de outra triste realidade: os recordes de desmatamento na Amazônia e as queimadas históricas no Pantanal.

As queimadas na Amazônia e no Pantanal aumentaram de forma expressiva em 2020. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe),de janeiro a novembro foram destruídos 116.845 km² do território da Amazônia e do Pantanal. Isso equivale a quase três estados do Rio de Janeiro.

Além das queimadas, outro problema bastante sério na Amazônia é o desmatamento. Segundo dados do Inpe, a Amazônia perdeu, em um ano, 11.080 km² em área desmatada - maior índice da década. E as queimadas na Amazônia têm relação direta com o desmatamento. "Basicamente sempre quando se desmata, tem queimada. Essa é uma maneira viável de se livrar de todo o mato. A queimada também ajuda a preparar o solo para a plantação. Serve para diminuir a acidez do solo, um problema na Amazônia, e deposita nutrientes" - Philip Fearnside, biólogo e cientista norte-americano em entrevista ao G1.

Em seu discurso online, na metade do mês de novembro, durante a 12ª Cúpula do BRICS, grupo com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o presidente Jair Bolsonaro criticou ataques políticos desferidos no Brasil pela explosão das queimadas e do desflorestamento e prometeu listar ao mundo os países que compram madeiras ligadas ao desmatamento ilegal da Amazônia. O presidente recuou, mas afirmou que a Polícia Federal usou a técnica semelhante a um “teste de DNA” para rastrear a origem de madeiras apreendidas e comercializadas, a partir daí, o termo “isótopos estáveis” ganhou novos espaços na mídia brasileira.

Nicole Cristina, bióloga e mestranda em Ensino de Ciências da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que os isótopos são átomos de um mesmo elemento químico que possuem a mesma quantidade de prótons (mesmo número atômico), mas diferenciam-se pelo número de massa. Os isótopos estáveis não se deterioram, ou seja, eles são conservados ao longo dos anos, assim, eles estão presentes no meio ambiente e contam a história do mundo e a história dos processos físicos e metabólicos.

Segundo Pereira (2007) no artigo Isótopos estáveis em estudos ecológicos: métodos, aplicações e perspectivas, os isótopos de hidrogênio e oxigênio são utilizados na determinação da composição da água utilizada pelos vegetais, já os isótopos de carbono, nitrogênio e enxofre são utilizados para explicar vias fotossintéticas, processos fisiológicos nos vegetais ou na determinação das fontes de alimento para consumidores em teias alimentares aquáticas ou terrestres. Também podem ser utilizados em estudos que envolvem migrações de animais, na determinação de fontes de poluição e na reconstrução de dietas paleoecologia. Assim, a combinação deles para determinados estudos irão contar uma parte da história do mundo.

O Eco fez uma matéria especial para explicar melhor aos leitores sobre a questão. Para isso, entrevistaram uma das maiores especialistas brasileiras no assunto, a pós-doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e professora na Universidade de Brasília (UnB) Gabriela Bielefeld Nardoto. Retiramos trechos da entrevista para que fique mais claro como funciona esta tecnologia.

Segundo a especialista, a tecnologia dos isótopos estáveis funciona da seguinte forma: “Um mesmo elemento químico pode ter variações no peso do núcleo de seus átomos. Assim temos isótopos leves e pesados para Carbono, Nitrogênio, Oxigênio e Hidrogênio. A proporção entre os isótopos pesados e leves varia conforme esses elementos circulam pelos ambientes naturais. Isso ocorre, por exemplo, quando uma molécula de água passa do estado líquido, como temos em lagoas, rios e oceanos, para o estado gasoso, como o vapor que encontramos na atmosfera, ou como no caso do Carbono, absorvido pelas plantas na forma de CO2 e transformado em glicose durante a fotossíntese. Essas variações são reguladas por fatores predominantes em cada região geográfica.”

Dessa forma, cientistas utilizam os isótopos estáveis para traçar a origem de determinados materiais. Assim como o DNA humano indica os pais, os isótopos estáveis apontam a origem geográfica. Seria como se os átomos de carbono, nitrogênio, oxigênio e hidrogênio tivessem um GPS.

Sobre a afirmação do presidente, Nardoto explica que “as proporções dos isótopos estáveis nas madeiras, assim como em qualquer outro material biológico, podem revelar informações sobre sua origem geográfica. Isso é possível pois os isótopos refletem as variações dos processos naturais que ocorrem no solo e na água de cada região e que são transferidos às plantas. Estas alterações locais são incorporadas pelos vegetais, servindo como marcadores de sua origem.”

Para realizar essa identificação, são comparadas amostras de origem desconhecida em relação às prováveis localidades com isótopos mais semelhantes à da amostra ou grupo de amostras. O mesmo princípio pode ser aplicado para estimar origens de animais comercializados ilegalmente.

O uso dos isótopos estáveis está consolidado há décadas no meio científico mundial, segundo Nardoto, e a aplicação forense no Brasil tem ganhado importância nos últimos anos, principalmente pelo edital Pró-Forenses, lançado em 2014 pela Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Desse modo, espera-se que o governo brasileiro entenda a necessidade e a importância de investir em ciência e pesquisa para que, cada vez mais, o conhecimento promova a melhoria não só das questões ambientais, mas de outras áreas também.

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